Archive for the 'Reflexões' Category

12
mai

Mais considerações sobre nosso ensino

 

Todos os educadores receberam como uma ducha fria os decepcionantes resultados do ENEM, especialmente aqui em São Paulo, que, como carro chefe do País, se supunha ter um ensino de qualidade.

Na verdade, a ducha era esperada: só a velhinha de Taubaté não teria percebido o que estava aí: eu mesma cansei de receber correspondências de alunos de universidades, com erros crassos de ortografia e sintaxe, denotando a absoluta falha na educação básica. O mais comum é eu receber e.mails em que o remetente se declara “ancioso” por uma resposta….

O resultado de anos de políticas equivocadas e, porque não dizer, indiferentes está aí.

Culpa do Governo? Dos educadores? Da família? De pouco adianta agora buscar  culpados: o que temos que fazer é corrermos todos atrás do prejuízo e buscar reverter a situação. Isto vai levar muito tempo e trabalho, mas de nada adiantará, se não tivermos uma idéia clara de onde queremos chegar.

E, me parece, enquanto as medidas para melhorar a escola de primeiro grau já estão sendo tomadas, com resultados alentadores, ainda não vejo uma luz no fim do túnel para a escola média.

A escola média tem, ou deveria ter, três principais finalidades:

  1. completar uma educação geral, iniciada no ensino básico que permitisse à pessoa pelo menos uma certa coerência de discurso, domínio da própria língua, entender bem um texto, boas noções de uma língua estrangeira, domínio de conhecimentos técnicos básicos tais como cálculos matemáticos, noções de ciências e de computação.
  2. preparar eventualmente o aluno para a universidade.
  3. abrir as portas para o mercado de trabalho, já que, para a maioria dos alunos o ensino médio será o ponto final de sua educação.

Como eu já disse em outros artigos, há hoje em dia um deserto que se interpõe entre a educação básica e o mercado de trabalho.

As famílias fazem sacrifícios, às vezes acima de suas forças, para mandar seus filhos para a faculdade, por acharem que este é o caminho mais curto para uma carreira futura. Mas não necessariamente isto é verdade. Atividades de nível médio são tanto ou mais importantes que as de nível universitário: quem não precisa de um bom atendente ao público, de um auxiliar de enfermagem habilitado, de um cozinheiro que domine as técnicas necessárias ou de um garçom educado, prestativo e que saiba lidar devidamente com os clientes?

Todas estas são PROFISSÕES que podem evoluir para um curso de nível superior, mas que poderiam proporcionar aos egressos do curso de segundo grau um emprego garantido, desde logo.

Para isso seria necessário que o segundo grau pudesse proporcionar, ao lado de matérias básicas  (português, inglês ou espanhol, matemática, computação etc.) conhecimentos específicos em cada área de trabalho, com oferta de estágios, antes do aluno ser enviado para o mercado.

No caso de serviços de hotelaria, que é o que interessa a todos nós do ramo, os alunos deveriam aprender, além das matérias básicas citadas acima, como fazer um eficiente serviço de salão, como limpar e arrumar adequadamente as dependências de um hotel ou restaurante, normas de higiene, técnicas de armazenagem, atendimento ao público, enologia e serviço de vinhos etc.

Hoje em dia, todo este trabalho de instrução é feito, eventualmente, pelos próprios hotéis e restaurantes, com grande dispêndio de dinheiro e energias. As lacunas são evidentes e desoladoras. E isto acontece num momento em que o País busca aumentar seu fluxo de turistas internos e externos e precisa, portanto, cada vez mais de pessoal preparado.

É preciso rever todo o conceito de ensino de nível médio, para que ele possa vir ao encontro das necessidades da população e do País. Não precisamos de tantos doutores, mas de bons profissionais em áreas intermediárias. E isto depende da vontade política do Governo e do engajamento de todos nós. Só espero que as autoridades tenham uma idéia concreta de como atuar: o primeiro passo deverá passar, necessariamente, por uma reformulação do programa para o ensino médio. 

30
mar

Uma agradável surpresa

Fiquei tentando me lembrar há quantos anos, exatamente, não ia para Foz do Iguaçú. Não consigo marcar a data com certeza, mas meus filhos eram garotos. Este ano, meu caçula acaba de fazer 33 anos, portanto já devem ter passado uns 20 – 25 anos desde a última vez que fui para a região a passeio, com toda a família.

Lembro da beleza solene das cataratas e do já um pouco decadente Hotel Tropical que pertencia à velha Varig.

Fui novamente a Foz na semana passada, a convite do Hotel Bella Itália, que neste ano completa 20 anos e, iniciou as festividades comemorativas com uma aula com degustação de azeites, apresentada por mim.

Foi uma agradável surpresa, em todos os sentidos.

O aeroporto, que eu lembrava pequeno e desguarnecido, estava irreconhecível, com instalações confortáveis e modernas.

No caminho para a cidade, muitos hotéis e resorts novos, já indicavam a mudança drástica que houve nestes 20 anos: Foz do Iguaçu se tornou uma bela cidade, com muito verde, amplas avenidas e um povo hospitaleiro e gentil.

Tive o privilégio de conhecer a Família Bortoli, uma “famiglia italiana” que se orgulha de sua origem, mas ama sua terra.

O hotel é dirigido por toda a família, pai, mãe e quatro filhos, que dividem harmoniosamente o trabalho. A gente vê o carinho e a dedicação com que isto é feito, até nos pequenos detalhes: tudo é cuidado, caprichado, feito com amor.

O serviço é impecável, coisa que me chamou a atenção porque é raro isto acontecer. Há uma sinergia entre todos os que ali trabalham: uma das possíveis razões é que a maioria das pessoas trabalha no Hotel há anos e, de alguma forma, se sente parte importante do conjunto.

E isto é fundamental.

Tive também ocasião de conhecer as cozinhas e as senhoras que lá trabalham; a organização é muito boa, as cozinhas são amplas e funcionais, feitas evidentemente por quem entende do riscado: o Sr. Arnaldo Bortoli me contou que, antes de abrir o Hotel, há 20 anos, viajou por vários países da Europa, estudando exatamente as cozinhas existentes e seus problemas.

Isto, para mim que estou cansada de ver cozinhas desenhadas por arquitetos que jamais pegaram numa panela e que criam problemas insuperáveis para os pobres cozinheiros, foi um verdadeiro refresco.

As cozinheiras foram muito simpáticas e interessadas em aprender novas receitas. Só pude passar algumas, porque o tempo era curto.

Reencontrei também a velha e boa “cozinha italiana” dos nossos imigrantes, uma cozinha que já não tem muito a ver com a moderna gastronomia italiana, sendo fruto da culinária  antiga, que os italianos aqui chegados conseguiam reproduzir, introduzindo algumas modificações quando faltava algum ingrediente que aqui não existia. Qualidade excelente dos ingredientes e uma fartura extraordinária.

Eu gosto de chamar esta cozinha de “colonial” e sempre me bati para que ela fosse preservada como parte de nossa história. Até iniciei uma coleção de receitas que sonho um dia ter tempo de reunir num livro.

Tudo isso para dizer que Foz do Iguaçu está fazendo a lição de casa, na parte do Turismo e Hospitalidade. Dotada de tantas belezas naturais, (as cataratas continuam deslumbrantes) ótimos hotéis e restaurantes, possibilidade de pesca,  turismo ecológico, trekking e muito mais, além de ser um verdadeiro paraíso para compras, ela tem tudo para se tornar meta privilegiada de turismo, não só nacional como internacional.

Ela está no caminho certo.

08
jan

GASTRONOMIA E TURISMO - Reflexões sobre a crise mundial

Está certo: estamos em plena crise econômica. Mas, como dizem os chineses, crise é sinônimo de oportunidade.

Tradicionalmente, os países em crise, por exemplo logo após a IIª Guerra Mundial, recorreram ao Turismo como solução inicial, eficiente, rápida e barata, para resolver seus problemas de caixa.

A Europa como um todo, semi-destruida pelos bombardeios, em pouco tempo se estruturou para fazer frente aos fluxos turísticos, com a ajuda do Plano Marshall.

Como ela se posicionou? Criando escolas de qualificação para atendentes tanto nos serviços hoteleiros como nos gastronômicos, que naquele momento estavam destroçados, com cursos rápidos e eficientes.

Com isso alcançou dois grandes intuitos: qualificar pessoas e criar empregos.

Os números do Turismo internacional, apesar da crise , são grandiosos: a UNWTO – United Nations World Tourism Organization – projeta para 2020 o número de 1,6 bilhões de viajantes em todo o mundo. E ela calcula que o impacto econômico que o Turismo tem nas nações menos privilegiadas é de 70% do total dos serviços de exportação. Será certamente menos no Brasil, mas assim mesmo poderá alcançar números notáveis.

Mais um dado: os Emirados Árabes, cientes que sua fonte de riqueza tem data certa para secar, estão investindo pesadamente em Turismo: Dubai, no ano passado, recebeu 45 milhões de turistas estrangeiros, cinco vezes o que o Brasil recebeu no mesmo período, sem ter nenhuma atração turística, a não ser as faraônicas instalações de mega-hotéis de luxo, que incluem até praias e ilhas artificiais, com direito a marola criada por potentes maquinários.

O Brasil tem um território imenso, que se caracteriza por uma enorme variedade de paisagens: temos praias belíssimas, serras majestosas, rios caudalosos e navegáveis, cidades históricas, em fim “produtos turísticos” invejáveis e “de verdade”. Temos uma população que impressiona o visitante por sua gentileza e amabilidade. Estamos criando, aos poucos, uma boa infra-estrutura hoteleira.

O que falta ainda para o fluxo turístico aumentar?  

Tenho certeza que se eu fizer esta pergunta a um operador do setor, ele responderá, além do eterno combate à violência (que é só urbana), que faltam serviços profissionais de qualidade: nossos garçons, ajudantes de cozinha, guardas e guias turísticos não estão corretamente treinados. Aliás, na maioria das vezes, eles não tem treinamento nenhum, para grande desespero dos responsáveis.

Vamos olhar o problema de outro ponto de vista: um grande número de jovens sem qualificação para entrar no mercado de trabalho, luta por seu lugar ao sol.

O que vamos fazer? Enfiá-los todos numa universidade de qualidade discutível, para que eles sejam, num futuro próximo, “doutores” frustrados? Nem todos tem vocação para o estudo e a maioria precisa ganhar rapidamente seu ganha-pão. Então porque não oferecer a possibilidade de um curso sério, de nível técnico, que proporcione a qualificação de garçom, atendente de hotel, guia turístico, cozinheiro etc? Um curso onde, ao mesmo tempo que se aprende uma destas profissões, seja possível aprender computação, uma língua estrangeira e “last but not least” o verdadeiro domínio e compreensão de nossa própria língua?

Os atuais cursos de Turismo, Hotelaria, Gastronomia criam “gerentes” nestes setores, mas o que acontece é que, ao sair da Universidade, os alunos não encontram o lugar que pensavam estivesse à sua espera e tem que se adaptar a um longo caminho que começa lá em baixo: ajudante de cozinha, atendente de hotel etc.

Minha sugestão é inverter o processo: favorecer a instalação de cursos profissionalizantes no Setor Turístico, de nível médio, de onde o aluno sairá com uma profissão muito procurada e, se quiser, poderá em seguida, cursar uma Universidade.

Esta não é uma solução original, mas tem dado certo onde foi implantada. Que tal copiá-la?

 

10
dez

Papo Gastronômico

Dias atrás, durante um agradável almoço com importante jornalista gastronômico, ele me fez a seguinte pergunta: “Já há 32 escolas superiores de Gastronomia no Brasil (suspeito que já sejam muitas mais…): não corremos o risco de repetir o que aconteceu com o Jornalismo? Um grande número de formados desempregados?”.

Minha resposta está hoje neste artigo.

HÁ 10 anos estou na área de Gastronomia. Só ultimamente começamos a assistir a uma verdadeira profissionalização na área. E assim mesmo, no meu entender, de maneira  pouco direcionada no assunto.

Dados oficiais internacionais atestam que há no mundo cerca de 1.500.000 vagas não-preenchidas na área da gastronomia.

Aqui no Brasil, com nosso Turismo ainda incipiente, há grande necessidade de pessoal especializado, tanto na área de Hotelaria como na própria Gastronomia.

Porém, em minha opinião, repetimos na Gastronomia, o erro geral de conceito, na educação: estamos privilegiando o ensino universitário em detrimento do ensino de nível técnico.

Certamente as instituições universitárias estão fazendo um bom trabalho. Só que voltado para o gerenciamento da área gastronômica. Das universidades saem jovens que se prepararam por longos anos, enfrentaram vestibular, provas e dificuldades, além de importante investimento econômico, para obter um diploma de nível superior. E o que eles encontram no mercado de trabalho é no máximo um lugar de simples cozinheiro, se não forem colocados a descascar batatas. O início de carreira é, portanto, muito duro e, de certa forma, uma desilusão. Este ex-aluno, agora formado e diplomado, será um frustrado porque o posto de chef-executivo é, tradicionalmente, a culminância de uma longa carreira que se inicia no fundo da cozinha e só depois de longos anos poderá se cristalizar num posto de chefia.

Nenhum recém-formado será colocado num posto de chefia sem que antes mostre a que veio.

Ao mesmo tempo, um dos grandes problemas dos bons chefs de cozinha é encontrar ajudantes preparados e eficientes. Isto não é uma contradição, na medida em que o ajudante deve ser uma pessoa preparada, mas de nível médio, e não de nível superior.

Em vista disto, andei pesquisando o que acontece no resto do mundo e tive algumas surpresas.

Na Europa, berço da gastronomia mundial, não há escolas de nível universitário.

Há institutos de nível médio, as “Escolas Hoteleiras”. Nelas, os alunos entram após o ensino básico e, ao mesmo tempo em que completam o ensino médio, fazem uma especialização em gastronomia, hotelaria ou enologia. Após três anos de formação, estão prontos para o mercado de trabalho, exatamente para ocupar estes postos de nível médio, com o devido preparo. Desejando, podem continuar no mesmo instituto por mais dois anos e obter um diploma de “Tecnólogo” nas mesmas matérias.

Em junho, estive na Itália, a convite da Região Piemonte, e pedi expressamente para visitar alguns destes Institutos. Visitei três em companhia de representantes da Região. Todos os institutos com instalações boas, sem serem luxuosas, com alunos muito motivados e compenetrados, fazendo todo o serviço, seja na cozinha, seja na sala. Num deles, foi servido um impecável almoço, preparado e servido pelos alunos.

Obtivemos uma série de programas oficiais e informações gerais. Não seria difícil adaptar corretamente estes programas para as necessidades brasileiras. Obtivemos também por parte dos Diretores destes Institutos, a disponibilidade em nos ajudar.

Dentro desta filosofia, o ICIF – Italian Culinary Institute for Foreigners -, instituto que represento no Brasil, abriu uma Escola em parceria com a Universidade de Caxias do Sul

em 2004. Participei ativamente em sua instalação e programação. Proporcionamos cursos de qualificação de 600 horas, de alto valor técnico, com chefs italianos e brasileiros devidamente treinados na Itália.

Mas o ideal seria fazer com que estes cursos se tornassem governamentais e subsidiados, para poder alcançar o verdadeiro público alvo: as classes menos favorecidas, que poderiam se qualificar em tempo relativamente breve e encontrariam facilmente postos de trabalho, ao se formar.

O SENAC já faz um bom trabalho neste sentido, com cursos de curta duração e há várias ONGs atuando também  neste setor.

Todas estas atividades porém são isoladas e não fazem parte de um plano geral de educação de nível técnico. Em muitas regiões do país, com grande potencial turístico, onde já estão se instalando grandes redes hoteleiras internacionais, não há cursos de qualificação para hotelaria e gastronomia, nem de nível superior.

Quem estiver lendo talvez pense que a instalação destes institutos de hotelaria custe excessivamente.

Obviamente, não são cursos baratos. Mas poder-se-ia instalar, em escolas já existentes, uma cozinha  com alguns equipamentos básicos indispensáveis e oferecer aos alunos do ciclo colegial aulas técnicas básicas como “corte de legumes, carnes e verduras”, “manuseio correto dos equipamentos” “Técnicas de higiene”,  “Armazenagem correta dos alimentos” etc.

A instalação em diferentes escolas poderia ser gradativa e certamente haveria para o desenvolvimento destes cursos, o apoio do setor hoteleiro como um todo, já que, sabidamente, há grandes dificuldades neste setor em todo o Brasil, que só podem ser sanadas através da Educação

Neste momento, em que o PNEB foi aprovado no Congresso, seria altamente aconselhável colocar em pauta a discussão sobre este tipo de ensino profissionalizante, que não vi citado nem cogitado.

Claro que a organização de um plano desta envergadura seria no mínimo complicada, mas se funciona em outros países, porque não pode funcionar aqui?

Sei que há muitas pessoas, entre as quais chefs famosos provenientes de outros países e com vasta experiência, dispostas a colaborar.

Vamos encarar este desafio?

 




Sobre

Paola Giusti Tedeschi é italiana residente de longa data no Brasil e tem uma longa história como professora e profissional de gastronomia e de enologia. Além de expert em gastronomia italiana, vinhos e azeites, e consultora de serviços na área, Paola é também professora de História da Gastronomia. Neste blog Paola registra a sua visão de grande conhecedora do assunto sobre questões de relevância no atual panorama gastronômico no Brasil e na Itália. Atualize-se sobre o mundo da gastronomia com a Paola!


março 2010
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