Archive for maio, 2009

12
mai

Mais considerações sobre nosso ensino

 

Todos os educadores receberam como uma ducha fria os decepcionantes resultados do ENEM, especialmente aqui em São Paulo, que, como carro chefe do País, se supunha ter um ensino de qualidade.

Na verdade, a ducha era esperada: só a velhinha de Taubaté não teria percebido o que estava aí: eu mesma cansei de receber correspondências de alunos de universidades, com erros crassos de ortografia e sintaxe, denotando a absoluta falha na educação básica. O mais comum é eu receber e.mails em que o remetente se declara “ancioso” por uma resposta….

O resultado de anos de políticas equivocadas e, porque não dizer, indiferentes está aí.

Culpa do Governo? Dos educadores? Da família? De pouco adianta agora buscar  culpados: o que temos que fazer é corrermos todos atrás do prejuízo e buscar reverter a situação. Isto vai levar muito tempo e trabalho, mas de nada adiantará, se não tivermos uma idéia clara de onde queremos chegar.

E, me parece, enquanto as medidas para melhorar a escola de primeiro grau já estão sendo tomadas, com resultados alentadores, ainda não vejo uma luz no fim do túnel para a escola média.

A escola média tem, ou deveria ter, três principais finalidades:

  1. completar uma educação geral, iniciada no ensino básico que permitisse à pessoa pelo menos uma certa coerência de discurso, domínio da própria língua, entender bem um texto, boas noções de uma língua estrangeira, domínio de conhecimentos técnicos básicos tais como cálculos matemáticos, noções de ciências e de computação.
  2. preparar eventualmente o aluno para a universidade.
  3. abrir as portas para o mercado de trabalho, já que, para a maioria dos alunos o ensino médio será o ponto final de sua educação.

Como eu já disse em outros artigos, há hoje em dia um deserto que se interpõe entre a educação básica e o mercado de trabalho.

As famílias fazem sacrifícios, às vezes acima de suas forças, para mandar seus filhos para a faculdade, por acharem que este é o caminho mais curto para uma carreira futura. Mas não necessariamente isto é verdade. Atividades de nível médio são tanto ou mais importantes que as de nível universitário: quem não precisa de um bom atendente ao público, de um auxiliar de enfermagem habilitado, de um cozinheiro que domine as técnicas necessárias ou de um garçom educado, prestativo e que saiba lidar devidamente com os clientes?

Todas estas são PROFISSÕES que podem evoluir para um curso de nível superior, mas que poderiam proporcionar aos egressos do curso de segundo grau um emprego garantido, desde logo.

Para isso seria necessário que o segundo grau pudesse proporcionar, ao lado de matérias básicas  (português, inglês ou espanhol, matemática, computação etc.) conhecimentos específicos em cada área de trabalho, com oferta de estágios, antes do aluno ser enviado para o mercado.

No caso de serviços de hotelaria, que é o que interessa a todos nós do ramo, os alunos deveriam aprender, além das matérias básicas citadas acima, como fazer um eficiente serviço de salão, como limpar e arrumar adequadamente as dependências de um hotel ou restaurante, normas de higiene, técnicas de armazenagem, atendimento ao público, enologia e serviço de vinhos etc.

Hoje em dia, todo este trabalho de instrução é feito, eventualmente, pelos próprios hotéis e restaurantes, com grande dispêndio de dinheiro e energias. As lacunas são evidentes e desoladoras. E isto acontece num momento em que o País busca aumentar seu fluxo de turistas internos e externos e precisa, portanto, cada vez mais de pessoal preparado.

É preciso rever todo o conceito de ensino de nível médio, para que ele possa vir ao encontro das necessidades da população e do País. Não precisamos de tantos doutores, mas de bons profissionais em áreas intermediárias. E isto depende da vontade política do Governo e do engajamento de todos nós. Só espero que as autoridades tenham uma idéia concreta de como atuar: o primeiro passo deverá passar, necessariamente, por uma reformulação do programa para o ensino médio. 




Sobre

Paola Giusti Tedeschi é italiana residente de longa data no Brasil e tem uma longa história como professora e profissional de gastronomia e de enologia. Além de expert em gastronomia italiana, vinhos e azeites, e consultora de serviços na área, Paola é também professora de História da Gastronomia. Neste blog Paola registra a sua visão de grande conhecedora do assunto sobre questões de relevância no atual panorama gastronômico no Brasil e na Itália. Atualize-se sobre o mundo da gastronomia com a Paola!


maio 2009
S T Q Q S S D
« abr   out »
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031